Escolhidos ou aleatórios

Trechos cometados ou não, e seja qual for o ponto de vista

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Cadernos de Lanzarote

“O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portando conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a uma alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim da África, o obrigou a ser poeta em Paris.”

Trecho escolhido de Cadernos de Lanzarote, de José Saramago.

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Peixe grande

"Não importa; a história está sempre mudando. Todas as histórias mudam. Já que nenhuma delas é verdadeira, as lembranças dos moradores da cidade adquirem um matiz especial, eles falam alto de manhã quando, durante a noite, recordaram algo que nunca aconteceu, uma boa história para compartilhar com os outros, uma reviravolta, uma mentira engendrada diariamente."

Trecho escolhido do livro Peixe Grande, de Daniel Wallace

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Dois irmãos

Zana devia achar estranho me ver sentado no quartinho, lendo e estudando, enquanto o filho mourejava. Uma única vez, na hora do almoço, vi o pai observar o filho cavar e remexer a terra, carregar sacos de folhas mortas, extenuar-se. Não sentiu pena dele. Comentou com amargura: “É curioso como ele sua, como se esforça só para não sair de perto da mãe”.

Trecho escolhido de Dois irmãos, de Milton Hatoum.

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Story

"O contador de estórias nos dá o prazer que a vida nos nega, o prazer de nos sentarmos para o ritual escuro da estória, olhando, através da face da vida, para o coração do que é sentido e pensado, além do que é dito e feito."

Trecho escolhido de Story, de Robert McKee.

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A poeira do outros e o sabor da realidade

Se alguém quiser escrever na grande imprensa usando sua criatividade e autoria, pena um bocado para ser compreendido, principalmente nos veículos mais tradicionais, ou “quadradões”. Há dez anos então, essa realidade era ainda mais inflexível. Não sei se Ivan Marsiglia sofreu para convencer no uso de sua criatividade, mas valeu a pena, como se pode ver no livro A poeira dos outros.

Resenha completa aqui:

http://cantodoslivros.wordpress.com/2013/10/10/a-poeira-do-outros-e-o-sabor-da-realidade/

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304,306 notes

brain-food:

The Living Cube by Till Könneker

I moved into a apartment studio without storage room. So i made a minimalistic cube design with a shelf for my vinyl collection, my TV, Clothes and Shoes. On the cube is a guest bed and inside the cube is a lot of storage space. Remo from www.holzlaborbern.ch transferred my sketches very beautifully. My friend and Photographer Rob Lewis made this great photos. Info via Behance

Dude. This would be a DREAM come true if i could have one of these in my studio apartment. I mean, after a few glasses of wine i wouldn’t be able to get to my damn bed, but whatever! SOMEBODY TAKE MY MONEY.

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Lavoura arcaica

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; (…)”

Trecho escolhido de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar.

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Um conto real

"Parei de inventar aqueles dois. Estava parecendo meio errado fazer aquilo. Melhor ouvir o que eles estavam dizendo. Estavam falando de literatura, o que por acaso me interessa, embora não vá interessar muita gente. O mais novo estava falando da diferença entre o romance e o conto. O romance, ele estava dizendo, era uma puta velha e flácida.

Uma puta velha e flácida, o mais velho disse com uma cara deliciada.

Ela tinha lá sua serventia, era espaçosa, quentinha e conhecida, o mais novo ia dizendo, mas a bem da verdade era meio gasta, a bem da verdade era meio frouxa e larga demais.

Frouxa e larga! O mais velho disse sorrindo.

Já o conto, em comparação, era uma deusa leve, uma ninfa magrinha. Como pouquíssima gente tinha conseguido dominá-la, ela ainda estava bem em forma. Bem em forma! O velho estava sorrindo de fora a fora com essa. Ele presumivelmente tinha idade suficiente para lembrar de anos na sua vida, e há não tanto tempo, em que teria sido pelo menos um pouco arriscado falar desse jeito. Eu fiquei imaginando, à toa, quantos dos livros da minha casa eram comíveis e o quanto eles seriam bons de cama.”

Trecho escolhido do conto Um conto real, de Ali Smith.

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