Escolhidos ou aleatórios

Trechos cometados ou não, e seja qual for o ponto de vista

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As babas do diabo

“Mas de bobo tenho apenas a sorte, e sei que se eu for embora, esta Remington ficará petrificada sobre a mesa com esse ar de duplamente quietas que as coisas móveis têm quando não se movem. Então tenho que escrever. Algum de nós tem que escrever, se é que isto vai ser contado.”

Trecho escolhido do conto As babas do diabo, de Julio Cortázar.

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O cheiro do ralo

“A bunda era o contraponto do ralo.

Esse ralo a que eu mesmo dei vida. Esse ralo é para onde projetei o escuro que sou. Esse ralo é o que eu lhe emprestei. O ralo e a bunda. Dois buracos extremos. Um leva ao interno do ser, outro ao interno do mundo.”

Trecho escolhido do livro O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli.

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O zen e a arte da escrita

“Sabemos quão nova e original cada pessoa é, até a mais devagar e entediada. Se nos aproximarmos dela, puxarmos conversa, deixá-la à vontade e, enfim, dissermos: “O que você quer?” - ou, se for uma pessoa idosa, “O que você quis?” -, qualquer pessoa vai falar do seu sonho. E, quando uma pessoa fala do próprio sonho com o coração, nesse momento de verdade, ela fala poesia.”

Trecho escolhido do livro O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury.

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Rimas da vida e da morte

“Neste momento o escritor entrou, sem se perguntar por quê, no vão da escada. Por um instante ele tateia no escuro para encontrar o interruptor, desta vez cuidadoso em cada movimento, pois a dor do choque contra o arame farpado naquela travessa ainda repercutia fortemente em uma de suas costelas, e agora ele apalpa e descobre que sua camisa está rasgada em mais de um lugar e do arranhão saíra um pouco de sangue que gruda nas pontas dos dedos que o tocam, e esse sangue coagulado exala um cheiro de esquecidas brigas de escola.”

Trecho escolhido de Rimas da vida e da morte, de Amós Oz.

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Um livro por dia

“Mesmo assim, George continuou. Primeiro comprou uma bicicleta para facilitar as idas à polícia para os relatórios diários. Depois, transformou o processo em um exercício de criatividade para seus convidados. Em vez de simplesmente anotar as frias informações pessoais, pedia que as pessoas escrevessem um pequeno conto sobre suas vidas e como chegaram à livraria. O hábito foi mantido depois do fim do cerco policial, e hoje George tem um arquivo de maravilhas sociológicas: dezenas de milhares de biografias escritas entre a década de 1960 e hoje, uma vasta pesquisa dos grandes vagabundos dos últimos quarenta anos. A missão de colocar a vida em palavras era uma oportunidade de confissão para muitos, e nas caixas abarrotadas de arquivos há histórias de amor e morte, incesto e vício, sonhos e desilusões, todas com uma fotografia três por quatro colada nelas.

Quando pedi para ficar na Shakespeare and Company, George me falou da tradição e me explicou a seriedade do compromisso. Pela primeira vez, desde quando eu era capaz de recordar, realmente estava nervoso para escrever.”  

Trecho escolhido de Um livro por dia - minha temporada parisiense na Shakespeare and Company, de Jeremy Mercer.

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O sentido de um fim

“Alguém disse uma vez que seus períodos favoritos da história eram aqueles em que as coisas estavam desmoronando, porque isso significava que algo de novo estava surgindo. Será que isso faz algum sentido se nós aplicarmos às nossas vidas? Morrer quando alguma coisa nova está nascendo - mesmo que esta coisa nova seja o nosso próprio eu? Porque assim como toda mudança política e histórica mais cedo ao mais tarde decepciona, acontece o mesmo com a idade adulta. E com a vida. Às vezes eu acho que o objetivo da vida é nos reconciliar com sua perda irremediável vencendo nossas resistências, provando, por mais tempo que isto leve, que a vida não é tudo que tem a reputação de ser.”

Trecho escolhido de O sentido de um fim, de Julian Barnes.

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Fazes-me falta

“Pode-se dormir no ombro de alguém uma vida inteira e morar noutros corpos, que nunca se tocaram. O sonho. Foi sempre essa a maior das minhas experiências. Amei com muito mais rigor os meus pais mortos do que aqueles que tive, na vida real, durante catorze anos. Para isso servem os mortos: para que os inventemos à medida do nosso desconsolo.”

“Os teus dedos - poderão estar enroscados no vento, os teus dedos que já não existem? Quando tu existias, o vento era apenas o vento. Cada coisa tinha uma forma exata e uma história de duração. Perdi a dureza que me fazia durar quando te perdi - ou melhor, quando desapareceste e eu me perdi em ti.”

Trechos escolhidos do livro Fazes-me falta, de Inês Pedrosa.

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